“Quero dizer pras pessoas: Eu sei que é difícil não odiar nos dias de hoje. E eu estava pensando, as vezes somos contaminados. O ódio fica mais poderoso com mais ódio. A única coisas que é mais poderosa que ódio é amor. Então, por favor, precisamos ser diferentes”, disse Bad Bunny.
O intervalo do Super Bowl LX, no domingo (8), não foi apenas um show, afinal, Bad Bunny, artista porto-riquenho que já empacotou compras em um supermercado de uma cidade humilde de Porto Rico, transformou o evento esportivo mais assistido do planeta em uma vitrine global da cultura latina, fora da lógica tradicional dos Estados Unidos.
Cantando integralmente em espanhol, o músico levou ao palco referências visuais e sonoras do Caribe e da América Latina, com cenários que lembravam o cotidiano porto-riquenho, ritmos como reggaeton, salsa e plena, além de participações de artistas latinos e internacionais. A mensagem era clara: a América é maior do que o imaginário anglo-centrado que historicamente domina o entretenimento global.
Bad Bunny não chegou ali por acaso. Antes de se tornar um fenômeno mundial, Benito Martínez Ocasio trabalhou como empacotador de supermercado enquanto publicava músicas de forma independente na internet. O caminho até o Super Bowl passa por streaming, redes sociais, cultura digital e uma geração que não pede permissão para ocupar espaços, simplesmente ocupa.

Dias antes do Super Bowl, Bad Bunny já havia feito história ao vencer o Grammy de Álbum do Ano com Debí Tirar Más Fotos, tornando-se o primeiro artista a conquistar o principal prêmio da indústria musical com um álbum totalmente em espanhol. A vitória foi interpretada por críticos como um marco simbólico, não se trata mais de “música latina” como categoria paralela, mas de protagonismo no centro do mainstream, onde a musica norte americana tem uma “supervalorização”.
O álbum, assim como o show, mistura tradição e contemporaneidade, passado e internet, identidade local e alcance global. É a estética de uma geração que cresceu consumindo cultura sem fronteiras e entende que pertencimento não precisa vir traduzido para o inglês.
No encerramento da apresentação, Bad Bunny exibiu frases e símbolos que reforçaram uma ideia que atravessa toda a sua obra recente, América não é sinônimo de Estados Unidos. A América é plural, diversa, multilíngue e atravessada por histórias que nem sempre tiveram espaço nos grandes palcos.

Essa escolha provocou reações. O ex-presidente Donald Trump criticou publicamente o show, reclamando do uso do espanhol e da abordagem cultural adotada. As declarações, no entanto, tiveram efeito contrário nas redes sociais, onde a apresentação foi amplamente defendida e celebrada, especialmente por jovens latinos e por uma audiência global que se reconheceu na proposta.
Além do entretenimento, o show de Bad Bunny foi lido como um reflexo de uma mudança cultural em curso. A ascensão de artistas latinos, o crescimento do consumo de música em espanhol e o papel central da internet na construção de carreiras estão redesenhando quem tem voz, e em qualquer idioma.
No maior palco da televisão americana, Bad Bunny não fez concessões. Cantou em espanhol, exaltou identidades historicamente marginalizadas e reposicionou o conceito de “América” diante de milhões de espectadores. Em um país atravessado por debates sobre imigração, fronteiras e pertencimento, o show funcionou como um gesto político claro, ocupar espaços de poder simbólico sem pedir autorização. Ao transformar o intervalo do Super Bowl em uma afirmação cultural, o artista deixou evidente que representatividade não é favor, é presença, e isso ele possui.
Por Duda Araujo, estagiária de Jornalismo, com supervisão de Fernanda Santana.
