Coluna Direito: Pensão por Morte: Por que morar junto já não garante o amparo de quem você ama

Por Dr. Natalino Filho

Hoje preciso pedir um minuto da sua atenção para falar de um assunto difícil, daqueles que a gente costuma empurrar com a barriga até que seja tarde demais: a pensão por morte para quem vive junto sem papel assinado.

Estou nessa estrada da advocacia previdenciária desde 1988. Já vi muita viúva e muito viúvo chorando duas vezes na nossa Região dos Lagos: primeiro pela perda dolorosa do companheiro, e segundo pelo balde de água fria que é descobrir, na boca do caixa, que o INSS negou o benefício e os deixou sem chão e sem sustento.

A verdade é que a Reforma da Previdência de 2019 mudou as regras do jogo de um jeito muito duro. Se você acha que viver sob o mesmo teto por anos é garantia automática de proteção, preciso te contar a realidade que o governo não te explica.

A grande mentira sobre a “pensão para a vida toda”

Muita gente ainda vive com a ilusão de que, se o companheiro falecer, a pensão é garantida para o resto da vida. Esqueça isso. A lei atual acabou com essa segurança e criou uma tabela de idade que pune quem é mais jovem.

Hoje, o tempo que você vai receber a pensão depende de quantos anos você tem no dia em que o seu parceiro partir:

  • A barreira dos dois anos: Se vocês moravam juntos há menos de dois anos, ou se quem faleceu tinha menos de um ano e meio de carteira assinada, o INSS só vai pagar a pensão por míseros 4 meses. Depois disso, o benefício acaba e você fica por sua conta.
  • O prazo de validade: Mesmo que o casal tenha décadas de vida em comum, se quem ficou tiver menos de 45 anos de idade, a pensão terá prazo de validade. Ela vai durar apenas alguns anos e vai sumir da sua conta quando você mais precisar. Para ter direito ao benefício vitalício, o sobrevivente precisa ter pelo menos 45 anos na data do óbito.

O governo desenhou essa regra para economizar dinheiro público à custa do amparo das famílias, tratando a dependência econômica de uma vida inteira como se fosse um detalhe descartável.

O drama da união estável “invisível” aqui em Araruama

O Rio de Janeiro é um estado onde as pessoas preferem “juntar as escovas de dentes” do que casar formalmente no civil. Mais de 40% dos casais fluminenses vivem em união estável informal. E na nossa Região dos Lagos, o cenário é ainda mais sério.

Araruama, Cabo Frio e Saquarema são conhecidas por acolher quem quer envelhecer com tranquilidade. Mais de 21% da nossa população local é idosa — um índice muito acima da média nacional. São casais que se unem na maturidade, constroem uma vida linda perto da lagoa ou da praia, mas mantêm a relação na informalidade, sem nenhum registro em cartório.

Aí, quando a fatalidade acontece, o sobrevivente se depara com um segundo luto: a muralha do INSS.

Com as agências físicas da nossa região sobrecarregadas e uma fila no estado que passa facilmente dos 90 dias de espera, o segurado fica refém de um sistema de computador. O robô do INSS não tem empatia e não quer saber da sua dor. Se ele não encontrar documentos incontestáveis que provem a união estável, ele nega o pedido em segundos e trata você como se estivesse tentando cometer uma fraude.

O que você precisa fazer hoje (enquanto há tempo) para proteger o amanhã

Para não dar margem de erro ao robô do INSS e evitar ter que entrar com um processo demorado na Justiça enquanto as contas se acumulam, você precisa construir as provas da união estável em vida.

Se você e seu companheiro vivem juntos na nossa região, comecem a reunir esses comprovantes hoje mesmo:

  • Escritura Pública de União Estável: É o caminho mais seguro. Vocês vão a qualquer Cartório de Notas aqui de Araruama ou Cabo Frio e declaram a convivência. É rápido, barato e não altera o estado civil de solteiro.
  • Comprovantes de endereço no mesmo CEP: Contas de água, luz, internet ou faturas de cartão com o mesmo endereço — idealmente uma no nome de cada um, provando que dividem os mesmos boletos sob o mesmo teto.
  • Vínculo financeiro: Conta bancária conjunta, cartões adicionais compartilhados ou a declaração do Imposto de Renda onde o parceiro conste como dependente.
  • Planos de saúde e seguros: Apólice de seguro de vida onde o companheiro é o beneficiário, ou a inclusão dele como dependente no plano médico ou odontológico.
  • Procurações: Documentos em cartório que dão poderes para um decidir pelo outro em situações de emergência médica ou financeira.

Amor não é só dizer que ama; é também deixar o outro seguro

Eu sei que falar de morte é incômodo. Ninguém gosta de pensar nisso. Mas planejar o futuro previdenciário não é atrair o pior; pelo contrário, é o maior ato de responsabilidade e respeito por quem divide a vida com você.

Como costumo dizer para os clientes que atendo no meu escritório: a sua vida previdenciária não é sobre você, é sobre as pessoas que você ama.

Não deixe para o seu companheiro ter que implorar por um direito no INSS ou ter que revirar gavetas atrás de fotos e testemunhas no momento em que ele estiver mais fragilizado pelo luto. Assuma as rédeas dessa situação hoje, com calma, enquanto vocês podem organizar tudo juntos.

A prevenção é a única vacina contra a frieza do sistema. Proteja quem você ama.

Dr. Natalino Filho é advogado com 35 anos de estrada, especialista em Direito Previdenciário e defensor da dignidade das famílias na Região dos Lagos.

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